EU SOU NEGÃO: Com a palavra, quem pode falar do assunto: os negões


Quando alguém fala o termo “negão”, é comum que muitas ideias e fantasias  passem pela cabeça de muita gente. A figura do negão que povoa o imaginário como um símbolo sexual é conhecida, mas, claro: não representa nem traduz os negros. Para  Gerônimo, cuja música  inspira esta fotorreportagem, ser negão é trazer consigo “toda sua beleza, com toda a sua arte, com toda a sua religião”.


Para entender um pouco mais sobre o assunto,  ouvimos representantes da negritude que se destacam em diversas  áreas. Eles transcendem estereótipos. A partir de  suas convicções e experiências de vida,  contam o que é ser negro ne como enfrentar o racismo. Cada um a seu modo,  eles militam diariamente para combater o preconceito.

Nas vozes de um vereador, um poeta, um estudante universitário e um rapper, a reportagem explora diferentes olhares sobre formas de enfrentamento da discriminação e  o senso de comunidade cada vez mais fortalecido entre os negros que vivem na capital baiana.


SÍLVIO HUMBERTO, 53 ANOS, VEREADOR: “Você tem que ser feliz, trabalhar e fazer política. Eu consegui fazer isso. E entrar na carreira de vereador foi uma consequência de um esgotamento de uma visão de fazer política. Desde os 18 anos venho na militância do movimento negro e aprendendo nessa trajetória que você não tem saídas individuais quando você enfrenta algo tão complexo como o racismo. Coletivamente, nós vamos muito longe e individualmente você faz o que é possível. Então você precisa fazer disputa política para ampliar os espaços, para que o esforço individual se materialize”.


Vereador da Câmara Municipal de Salvador pelo PSB,  eleito em 2016 para o segundo mandato, Sílvio Humberto, 53,  é diretor fundador do Instituto Cultural Beneficente Steve Biko, que há 24 anos abriga um curso pré-vestibular voltado para os jovens negros, onde além das disciplinas comuns, há aulas voltadas para cultura e consciência negra, assim  os jovens  que entram na universidade têm “outra cabeça, e vão enfrentar outros obstáculos”. “Eu sou daqueles que o sistema disse ‘ o cara se esforçou, teve boa educação’ mas eu também virei um ponto de inflexão”, reflete, “eu olhava para os meus pares e via onde eles estavam”.

Doutor em Economia e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Sílvio afirma que o racismo “é anti-econômico”. “Por que as mulheres levaram um bom tempo não tendo maquiagem específica para as peles se as peles são diferentes? O problema não era a técnica. Se o padrão funciona, se quem está lá não reclama, eu vou produzir no padrão. Quando você não reconhece a especificidade desse mercado, você, por exemplo, não reconhece pessoas negras como modelos e deixa de gerar trabalho e renda”. Segundo ele, se há uma “consciência” das pessoas que começam a questionar,  o mercado “começa a lembrar que tem uma pele negra que é diferente da branca”.


JACK NASCIMENTO, 29, DJ: “O tempo de ficar acuado sem questionar  já passou. Hoje nós sabemos que nossos lugares são iguais aos de todo mundo”.


Preconceito

“Quando você entra numa loja de shopping, a primeira pessoa que eles desconfiam é o negro, trabalho em loja, vejo isso”, afirma Jackson Diego Nascimento Paula,29. “Quando nós fazemos uma coisa, não podemos fazer o básico. Para eles não é suficiente, a gente tem que mostrar que merece aquele lugar”. Além do trabalho na livraria de um shopping, Jack Nascimento cursa o 7º semestre de design na Uneb. Para ele, se aceitar como negro é um processo difícil. “Somos constantemente ensinados que somos inferiores. Já me disseram que eu nunca seria ninguém na vida, ia trabalhar como burro de carga porque eu não tinha intelecto para isso”. Vindo da periferia do município de Catieté, a 645km de Salvador, Jack é o primeiro de sua casa a fazer universidade.

DJ

Se de manhã o trabalho é duro, à noite também, mas é mais divertido. Jack é DJ e também atua na organização da primeira festa voltada para o público negro e LGBT de Salvador, a Batekoo, que definiu como um “porto seguro”, um lugar onde as pessoas não serão julgadas.


MR. ARMENG, 33, RAPPER: “Eu fiquei um tempo parado porque eu queria fazer um som que fosse a cara de Salvador, sempre gostei de ter o nosso pertencimento, que tenha o suingue, o nosso vocabulário, que fale da nossa cultura, da identidade. Ser negro é resistir, é quebrar barreiras, é aceitar desafios, é ter a resistência na ponta do pé, na ponta da língua, nas nossas atitudes. Aqui é uma cidade negra, e a gente precisa mostrar que precisamos ser respeitados, que essa ela precisa amar a gente, que ela precisa valorizar tudo que nosso povo fez por essa cidade, porque sem os negros Salvador não era nada”.

Identidade

“Sempre convivi com cultura negra, mas quando criança passava despercebido”. Ao pensar em negritude, Mauricio dos Santos Souza, 33, lembra dos quadros que seu pai, o cantor Guiguio do Ilê, trazia dos Estados Unidos. “Tinha Marvin Gaye, The Jacksons 5, eu não conhecia”. Podia ter ido para a música afro, mas o que me tocou foi o hip-hop; dentro da cultura negra me identifico com isso”.

Hip-hop

“Quando estudei no Manoel Novaes, escola envolvida com música, a professora me disse ‘pare, você não serve para cantar’, achei que nunca seria da música, e o hip-hop me disse ‘não, cara, você pode rimar’”. Em 2006, Maurício saiu do emprego como frentista e usou a recisão para investir na música. Comprou equipamento e montou o Freedom Soul, estúdio focado em rap que em 2016 faz dez anos. Em 2013, ele venceu o concurso Breakout Brasil, que lhe rendeu contrato com a Sony Music e visibilidade.
Pertencimento
Para Armeng, a periferia é cercada de maus exemplos, por isso é importante continuar na comunidade. “Eles podem olhar e dizer ‘ esse representa’.



SANDRO SUSSUARANA, 28, PRODUTOR CULTURAL: “O mais importante é compreender que você é lindo. Que a sua estética é maravilhosa, seu crespo é maravilhoso, é olhar no espelho e dizer ‘caraca! Hoje eu acordei mais bonito que ontem e com certeza menos bonito que amanhã’. É fazer um exercício de autoestima diário para que nada de fora possa mudar esse seu pensamento ou te colocar para baixo.”

Jornada Tripla

Pela manhã, Sandro Ribeiro dos Santos, 28, estagia numa empresa de engenharia, e à noite estuda serviço social na Fundação Visconde de Cairu. Entre as aulas e o trabalho, Sandro equilibra as atividades de membro fundador do grupo Ágape, coletivo que organiza o Sarau da Onça, acontece no bairro de Sussuarana. Há cinco anos, o projeto sem fins lucrativos traz músicos, poetas e outros artistas para estimular no público o senso crítico e a consciência negra. “É mostrar para essa geração pós-eu que é possível a gente alcance destaque positivo, seja dentro da mídia ou fora dela”, afirma.

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Poesia

Embora não viva de sua poesia, Sandro colhe diariamente os frutos do trabalho na forma de convites para se apresentar, junto ao grupo Ágape, em diversos eventos, escolas e instituições, e até já viajou para outras cidades da Bahia e do Brasil para apresentar seu trabalho.
Em 2014, ele organizou os livros “O Diferencial da Favela – Poesias quebradas de quebrada”, que reúne poemas de 50 autores de Salvador, e “A poesia cria asas”, do grupo Ágape. Mais que um título, a frase representa a convicção do poeta no poder das palavras.

Por: Heitor Oliveira - Correio 


 




Sobre o autor
Adenilton Cerqueira é fundador e diretor editorial da Black Brasil, conhecido entre os amigos como Théo, baiano,  feirense de nascença e soteropolitano de coração, é radialista, e blogueiro nas horas vagas. continue lendo aqui  

 
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