Como abordar a questão racial na imprensa?

Durante congresso da Abraji, jornalistas falaram sobre questões raciais na imprensa (Imagem: Marcello Casal/Agência Brasil)


Por: Tácila Rubbo no Comunique-se

Em um país como o Brasil, que se proclama cheio de diversidade racial, como se dá a presença – e a ausência – de negros na imprensa? Como isso se reflete nas histórias contadas pela mídia? As jornalistas Cinthia Gomes e Juliana Nunes abordaram o assunto durante o primeiro dia do 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo realizado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), na quinta-feira, 23, em São Paulo.

Cinthia apresentou panorama de como tornar a prática jornalística plural. Segundo a repórter da CBN São Paulo, a representação do negro na imprensa sempre girou em torno da figura excluída socialmente. Para ela, a partir do século XXI, o cenário começou a mudar, mas que até hoje “o negro aparece, na maior parte dos momentos, apenas em matérias sobre negritude”.

Para as duas jornalistas, é necessário adotar tratamento equitativo de homens e mulheres para que as pautas sejam equilibradas. “O ideal é, sempre que possível, usar dados de sexo, raça e etnia para contextualizar a matéria, utilizando a categoria oficial do IBGE para a definição da população negra no conteúdo jornalístico”, explicou Cinthia.

Outro ponto destacado durante a discussão da questão racial na imprensa foi a importância de analisar as sugestões de pautas de forma isenta de visões preconceituosas sobre os indivíduos e grupos. Quando o assunto for beleza feminina, é fundamental evitar o contexto “exótico” sobre mulheres negras, indígenas, quilombolas, pontuaram as palestrantes.

“Prefira narrativa que valorize as tradições e insira estas personagens positivamente na sociedade”, declarou Cinthia. “Selecione imagens onde mulheres negras e indígenas, por exemplo, estejam em posições de poder”, disse a repórter da CBN.

Sobre a representação negra em imagens, de acordo com as profissionais, o profissional responsável pela pauta deve pensar na questão do critério de beleza que está influenciando sua escolha, fugindo do padrão estético e de dominação masculina e branca.

Diversidade racial nas redações
“Quantos colegas negros trabalham nas redações com vocês?”, perguntou Cinthia ao propor reflexão sobre iniciativas que incluam a diversidade racial nas pautas e no exercício dos profissionais da imprensa brasileira.

Ao abordar o tema, a jornalista propõe que as empresas de comunicação adotem posturas mais transparentes em relação aos critérios de contratação e processos seletivos, não apenas baseados em indicação e networking. Além disso, a repórter destacou a importância de repensar o quanto parâmetros políticos, baseados em preconceito e estereótipos influenciam nos critérios de noticiabilidade e escolha das pautas.

Além dos pontos abordados por Cinthia, o painel expôs reportagens sobre diversidade de gênero produzidas nos últimos anos pela Agência Brasil e TV Brasil, veículos mantidos pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), onde Juliana trabalha.

*Com edição e supervisão de Anderson Scardoelli.

 
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