CINEMA: Documentário celebra Mestre King, pioneiro da dança afro no Brasil.

Mestre King, de 73 anos, ultrapassa os 50 anos de carreira na dança (Foto: Divulgação)


O Jornal Nacional anunciou, em 1971: “Primeiro homem da América Latina a fazer vestibular de dança: Raimundo Bispo dos Santos”. Ao receber a notícia que tinha sido aprovado na Universidade Federal da Bahia (Ufba), o baiano de Santa Inês jamais imaginaria que se tornaria Mestre King, um dos precursores da dança afro-brasileira, com reconhecimento internacional.

Responsável por formar os principais nomes da dança afro na Bahia, como Zebrinha, Augusto Omolu, Armando Pequeno e Paco Gomes, Mestre King revolucionou a prática e o ensino da dança contemporânea. Para celebrar o dançarino e coreógrafo que ultrapassa 50 anos de carreira, aos 73 anos, nasceu o documentário Raimundos: Mestre King e as Figuras Masculinas da Dança na Bahia.


“Esse processo de King, que na verdade é o mote, marca a entrada do homem e negro na Escola de Dança da UFBA. Além disso, destaco a forma que ele leciona, indo sempre em escolas públicas e associações, além da Escola de Dança da Funceb, da UFBA, onde boa parte desses Raimundos começam a se formar”, destaca o bailarino e coreógrafo Bruno de Jesus, 28, diretor do documentário.

O filme será lançado quinta, às 20h30, no Espaço Itaú de Cinema Glauber Rocha, no Centro, com entrada gratuita. O evento inclui três espetáculos de artistas influenciados por Mestre King, que estava hospitalizado para exames de rotina durante a produção dessa matéria. As coreografias ocupam o Teatro Gregório de Matos (TGM) de quinta a sábado, às 19h, com ingresso a R$ 20 | R$ 10, e são seguidas de sessões do filme.

Mistura de técnicas
Em cerca de 40 minutos, o documentário passeia por vida e obra de Mestre King, através de depoimentos do próprio dançarino e de jovens artistas influenciados por ele. Entre eles, os coreógrafos Matias Santiago, Clyde Morgan, Amilton Lino e Luis Bokanha, além de artistas de outras áreas como o percussionista Gabi Guedes.

Junto às entrevistas, o filme traz flashes das aulas abertas que Mestre King faz todos os anos, na Praça da Sé, no dia 31 de dezembro, além de cenas inéditas de King dançando. Com roteiro de Gabriel Ormuz Machado, Raimundos: Mestre King e as Figuras Masculinas da Dança na Bahia mostra a influência dessa figura revolucionária nos corpos dos seus alunos replicadores.

“Achava que poderia celebrar King celebrando todos esses dançarinos e a história do negro na dança”, explica o diretor do documentário que mostra como King mistura técnicas da dança moderna e improviso para reconfigurar movimentos dos orixás. Trabalho feito “sem pretensão nenhuma”, como disse King em entrevista à TVE.

A percussão de nomes como Gabi Guedes é forte nas coreografias (Foto: Gessica Fontana/ Divulgação)


“Comecei a misturar as coisas. Aí comecei a estilizar os movimentos tradicionais dos orixás para a dança. Aprendia na Universidade Federal e levava para o Serviço Social do Comércio, onde eu ensinava. Daí saíram Augusto Omolu, Zebrinha, Gilberto Bahia. Começamos a fazer uma movimentação e o fundo musical era o atabaque”, conta King.

Raimundos
Puxada de rede, samba de roda e toda a simbologia dos orixás inspiram a coreografia Raimundos, que Bruno de Jesus estreou em 2014 para celebrar os 50 anos de carreira de King e que inspirou o documentário. Raimundos será apresentado quinta, às 19h45, antes da estreia do filme, e sexta, às 19h.

A coreografia parte da investigação dos elementos de matriz africana e destaca o corpo como sagrado e como festividade, através do olhar contemporâneo. “São livres inspirações desse material que King é um dos precursores nos seus espetáculos”, explica o autor da coreografia.

Na quinta também será apresentado o solo Negrume, às 19h, do  dançarinho, músico e palhaço Viana Júnior, do Ceará, que exalta a população quilombola e o maracatu. Quem encerra o evento, sábado, é a ExperimentandoNUS Cia. de Dança com a coreografia Da Própria Pele, Não Há Quem Fuja, sobre a religiosidade das matrizes culturais brasileiras.

O espetáculo Raimundos é o precursor do documentário sobre Mestre King, que estreia quinta, às 20h30, no Espaço Itaú Glauber Rocha (Foto: Tiago Lima/ Divulgação)


Protagonista de Negrume, Viana Júnior, 26, destaca a importância da abordagem de Mestre King, “em trazer a temática do candomblé para o espaço cênico”. “É essa possibilidade de trazer o que há de belo nas manifestações de matriz africana. Sair desse lugar de mostrar a dor negra. Mostrar o que merece ser celebrado, reverenciado”, defende.

Fã de rock, King exaltava a erudição africana
“Dança?”, foi a pergunta que o pai de Raimundo Bispo dos Santos, o Mestre King, fez ao descobrir que o filho não tinha feito vestibular para arquitetura ou engenharia, como tinha sugerido. Ao ouvir um firme “sim, dança”, o pai do jovem bailarino levantou, abraçou o filho e disse “toda profissão é digna de qualquer homem. Então abrace sua profissão”. Foi exatamente o que Mestre King fez.

Nascido em Santa Inês (a 285 km de Salvador) em família pobre, e adotado pela família Sarquis, em Salvador, King trilhou outros caminhos até chegar na dança. Roqueiro, ele cantou dez anos no Coral Mosteiro de São Bento e trabalhou na Marinha, até ser apresentado à etnomusicóloga Emília Biancardi, que o ensinou a dançar maculelê na cozinha de casa.

Paralelo a isso, treinava capoeira e  acabou sendo convidado para participar do Olodumare como capoeirista. No grupo, uma professora de dança ficou impressionada com sua expressão corporal e ofereceu uma bolsa de balé na Escola de Dança da Ufba. 

Mestre King na juventude, em plena atuação (Foto: Divulgação)


Fã do heavy metal, Mestre King ouviu: “Pode ir esquecendo esse tipo de música, a universidade não aceita isso” e foi obrigado a escolher a música clássica para o teste prático do vestibular: a composição Noturno, do pianista polonês Frédéric Chopin (1810-1849).

Já na universidade, Mestre King pegou uma matéria de estilização do movimento e pensou “por que não fazer o perfil dos orixás”? Estava ali o embrião da dança afro-brasileira. Dedicado à pesquisa, passou a frequentar terreiros de candomblé e mergulhou no universo dos orixás. Acusado de vender a cultura negra para os brancos, King não se intimidou, já que acreditava estar “tirando o candomblé da catacumba”.

Graças à persistência, hoje é professor da Escola de Dança da Ufba e, em sua trajetória, deu aulas em universidades dos Estados Unidos e da Europa. Além disso, foi professor do Sesc Bahia, onde formou gerações de bailarinos como Zebrinha, diretor artístico do Balé Folclórico da Bahia e coreógrafo do Bando de Teatro Olodum, responsável também  pela coreografia da série Mr. Brau, exibida na Globo/TV Bahia.

“A partir de King, a gente começou a vislumbrar a arte negra no mundo. Aprendi com King que minha erudição é africana e essa erudição passa pelos atabaques”, afirma Zebrinha, 62 anos. “King faz parte da memória da arte desse país, da memória educacional e até da memória revolucionária negra. Sou formado em pedagogia, tenho mestrado em educação, mas minha grande referência artística e educacional é King. O cara é genial”, completa.




Sobre o autor
Adenilton Cerqueira é fundador e diretor editorial da Black Brasil, conhecido entre os amigos como Théo, baiano,  feirense de nascença e soteropolitano de coração, é radialista, e blogueiro nas horas vagas. continue lendo aqui  

 
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