Sem perder tom crítico, periferia alerta para riscos de golpe no Brasil

“Queremos que a presidenta passe a atender nossas demandas assim como Lula. Não queremos a saída dela, pedimos que ela melhore”, afirma militante.

No próximo domingo (17), a Câmara dos Deputados deve votar o processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff (PT). Ao lado do governo, um legado de conquistas sociais que permitiram a retirada de milhões de brasileiros da linha da pobreza. Do outro lado, a direita que brada pelo golpe desde que perdeu a quarta eleição seguida para o PT.

Em meio ao clima de polarização, ficou inevitável que lideranças de diversos setores se posicionassem sobre o futuro do País. Mantendo o tom crítico que foi adotado principalmente no segundo mandato da presidenta Dilma, organizou-se o coletivo “Periferias Contra o Golpe”, que já conta com mais de 500 adesões de todo o Brasil.





Para além do grupo, ações correm em paralelo nas periferias. Reuniões organizadas por coletivos para debater o momento político do País ajudam a oferecer uma contra narrativa ao discurso imposto pela grande mídia aos brasileiros. Toda segunda-feira, o poeta Sergio Vaz, fundador da Cooperifa, comanda no bar do Zé Batidão, na Chácara Santo Antônio, zona sul de São Paulo, uma roda de conversa com moradores da região sobre o impeachment.

“Se na democracia já nos atiram pelas costas, já querem fechar nossas escolas, já roubam a merenda de nossas crianças, imagina depois desse golpe”, afirmou Vaz. “A periferia sempre vai reagir, como sempre reagiu. Mas, depois a gente vai lá cobrar.”

Fundadora da festa Batekoo e uma das idealizadora do festival “15 contra 16”, que lutava contra a redução da maioridade penal, a produtora cultural Renata Prado recorda dos avanços permitidos pelos  governos petistas. “A periferia sentiu na pele a transformação social do País quando Lula ganhou as eleições pela primeira vez. Desde 2002, a periferia vem sendo beneficiada com grandes projetos que emanciparam a população pobre e periférica, e nós sabemos quem foi os principais representantes dessa luta: Os movimentos sociais que nunca deixaram de pressionar o governo e o PT, partido que abriu o dialogo para atender as demandas do povo”, afirma a militante, comemorando os resultados dessas políticas.

“Aqui na periferia, a Polícia continua matando preto e pobre assim como era em 1964, isso não mudou. A redução da maioridade penal está batendo na nossa porta, os portões das escolas estão sendo fechados, a PM continua constrangendo trabalhador negro na hora do enquadro. Muita coisa ainda está errada. Queremos que a presidenta passe a atender nossas demandas assim como Lula fez no início do seu mandato. Não queremos a saída dela, pedimos que ela melhore sua governabilidade”, critica Renata, que vive na zona leste de São Paulo.

Liderança política nas políticas, o professor e coordenador da Uneafro, Douglas Belchior (Negro Belchior), condena a tentativa de impedimento da presidenta, mas faz ressalvas sobre o sofrimento diário do povo que vive nas áreas afastadas do centro. “Nós nunca tivemos uma democracia de fato no País, que viveu quase 400 anos de escravidão e que nunca conseguiu, no pós-escravidão, oferecer dignidade ao povo preto. Um golpe, ou a derrubada de um governo democraticamente eleito, por mais fragilizado e limitado que ele seja, fortalecerá um grupo político que persegue a periferia. A polícia será empoderada para promover as mortes nas quebradas, a negação dos direitos de manifestações, o cerceamento de entidades ligadas ao povo. A nossa luta é por uma democracia real, uma democracia que nunca vivemos”, encerra.

O poeta Binho, fundador do Sarau do Binho, no Campo Limpo, zona sul de São Paulo, lembrou de 1964. “A verdade é que o golpe militar nunca acabou aqui. Em cada delegacia, encontramos um quartel do Exército, pronto para nos torturar e prender. Óbvio que com a queda de Dilma, da forma como está colocada, será um golpe nela e na periferia. O pouco de democracia e dignidade que temos nos será arrancado, vamos perder. Por isso, estamos na rua contra esse movimento que quer nos oprimir mais ainda do que já somos”, argumenta o ativista.


 
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