Por que beijar sua preta em praça pública é um ato de resistência





Mulheres e homens negros e a perpetuação do controle da subjetividade pelo sexismo e racismo
"Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso."

Esse é o segundo parágrafo do texto Vivendo de Amor da escritora afro-americana, teórica feminista e crítica cultural, bell hooks (o nome é grafado em letras minúsculas*). Essa falta de amor relatada pela escritora seria o resultado final para as mulheres de um processo histórico fincado à época da escravidão.

Se até hoje negras e negros vivem uma condição social e econômica advinda tanto do passado escravagista quanto do racismo presente na sociedade, é possível dizer que esses dois elementos influenciam também na construção da subjetividade de homens e mulheres negras e no modo como se relacionam? Sim, seria a resposta de hooks e de muitos outros pensadores negros que acreditam que a escravização se sustentou também pelo controle da subjetividade dos escravizados.






Segundo a autora, a fome, o trabalho pesado, as punições cruéis e o abuso diário a que eram submetidos, condicionou o povo negro a reprimir seus sentimentos. “Um escravo que não fosse capaz de reprimir ou conter suas emoções, talvez não conseguisse sobreviver."

A supremacia branca, a interiorização do racismo e de um sentimento de inferioridade, são fatores que ajudaram na perpetuação dessas barreiras emocionais que influenciam até hoje os relacionamentos dos negros.

Se o homem negro sofre com o racismo, a mulher negra sofre duplamente, pois junta-se aí o sexismo. “O sexismo e o racismo trabalhando juntos para perpetuar uma iconografia da representação da mulher negra que imprime na consciência cultural coletiva a ideia de que as mulheres negras vem a este planeta, principalmente, com a finalidade de servir os outros”, aponta bell hooks em seu livro "Mulheres negras intelectuais".

Foi por meio da sua observação da condição da mulher negra na cidade de São Paulo, que a Professora Mestre em Ciências Sociais pela PUC/SP, Claudete Alves começou seus estudos sobre a solidão da mulher negra.

Em sua pesquisa, Claudete aponta dados que revelam que os casamentos no Brasil se orientam por um padrão e conta com diversas variáveis, entre elas a raça. Sua tese de mestrado foi transformada no livro “Virou Regra?” que não só constata como a mulher negra é preterida pelo homem negro, como aponta possíveis razões sobre por que isso acontece.

Claudete, na introdução de seu livro, apresenta a compreensão de como a afetividade das pessoas não é apenas pautada pelo sentimento/amor, mas sim por preferências sociais, políticas, culturais e étnicas, como citado acima.
Em seus estudos, a autora aponta com veemência a importância do comportamento do homem negro,que pretere a mulher negra, virar regra. “Mulheres negras tendem a valorizar e priorizar relações com os homens negros, mas o contrário não acontece”, afirma. Segundo a autora, algo que explicaria essa escolha seria o desejo de ascensão social projetada e uma relação inter-racial, que faria o homem negro escolher a mulher branca; a interiorização do “embranquecimento” da família numa tentativa de negação da sua origem e, por fim, o desejo construído (social e midiaticamente) em torno da mulher branca.

Publicado em 2010, “Virou Regra?” já vendeu cerca de cinco mil exemplares e continua sendo polêmico por discutir afetividades e subjetividades, campo pouco explorado pelo Movimento Negro ainda hoje. “A questão é subjetiva, mas ao mesmo tempo traz uma consequência bem cruel: a solidão da mulher negra”, conta a autora ao relatar que geralmente os homens negros ficam indignados com o conteúdo do livro, enquanto as mulheres negras, normalmente, se sentem acolhidas.

Há um ponto bem polêmico no livro de Claudete que acaba dialogando com bell hooks. Ambas falam sobre o comportamento do homem que milita na causa negra. Sobre isso hooks escreve: "Mulheres heterossexuais chegam ao movimento vindas de relacionamentos em que os homens foram cruéis, nada gentis, violentos, infiéis. Muitos desses homens foram pensadores radicais que participaram de movimentos por justiça social, falando em nome dos trabalhadores, dos pobres, falando em nome da justiça racial. No entanto, quando surge a questão de gênero são tão machistas como seus companheiros conservadores.”

Resistência

 Veiculada em 1991 pelo jornal do Movimento Negro Unificado (MNU), a campanha "Reaja à violência racial: beije sua preta em praça pública", ainda hoje é muito lembrada. A imagem chama a atenção por atrelar a afetividade negra à violência. Quando escreveu os versos que viraram posteriormente parte da campanha, o poeta soteropolitano Lande Onawale buscava justamente ampliar a visão da sociedade sobre o que era racismo e o que era violência racial. Segundo ele, a violência policial monopolizava muito os discursos sobre a prática do racismo.

O poema “Reaja à violência racial: beije sua preta em praça pública" não foi concebido como ato de resistência, mas se tornou no contexto de uma sociedade racista que “diz a todo tempo que não somos capazes e merecedores desse amor mútuo – de nenhum amor, na verdade”, considera o poeta.

Lande aponta que a baixa estima e os complexos no campo da afetividade conseguem um dos efeitos mais aterradores do racismo: afasta homens negros de mulheres negras e vice-versa. “Esse controle e reinvenção da afetividade não são absolutos, mas são hegemônicos. Conseguem ainda gerar padrões para atos, sentimentos e pensamentos racistas e discriminatórios”, expõe.

Fica evidente que falar de afetividade é preciso e, neste contexto, bell hooks afirma em outro trecho de Vivendo de Amor: "No nosso processo de resistência coletiva é tão importante atender as necessidades emocionais quanto materiais."

**bell hooks, sobre seu nome grafado em letras minúsculas: “o mais importante em meus livros é a substância e não quem sou eu”.




 
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