Negar atendimento a um bebê porque a mãe é do PT é imbecil e imoral



Francisco tem um ano. Sua mãe, Ariane, leva o menino todo mês à pediatra, Doutora Maria Dolores. Consultas de rotina, para acompanhar o desenvolvimento do menino. Levava. A médica se recusa a continuar atendendo Francisco. A razão é a posição política dos pais da criança.
A mensagem que Maria Dolores mandou para Ariane foi a seguinte:

"Bom dia Ariane. Estou neste instante declinando em caratér irrevogável, da condição de Pediatra de Francisco. Tu e teu esposo fazem parte do Partido dos Trabalhadores (ele do Psol) e depois de todos os acontecimentos da semana e culminando com o de ontem, onde houve escárnio e deboche do Lula ao vivo e a cores, para todos verem (representante maior do teu partido), eu estou sem a mínima condição de ser Pediatra do teu filho. Poderia inventar desculpas, te atender de mau humor, mas prefiro a HONESTIDADE que sempre pautou minha vida particular e pessoal.

Se quiser posso fazer um breve relatório do prontuário dele para tu levar a outro pediatra.
Gostaria que não insistisse em marcar marcar consultas mais.

Estou profundamente abalada, decepcionada e não posso de forma nenhuma passar por cima dos meus principios. Porto Alegre tem muitos pediatras bons. Estarás bem acompanhada
Espero que compreendas."

Ariane é suplente de vereadora pelo PT, em Porto Alegre. Mesmo que Francisco fosse filho de psicopatas assassinos, a posição de Maria Dolores é um absurdo. O que tem a criança a ver com os pais? O moleque é petista? Amigo do Lula?

E aliás, e se fosse?  Seja a consulta de rotina ou emergência, tem um médico o direito de discriminar quem vai atender? Pela cor, idade ou gênero do paciente? Pelo partido que vota ou time que torce? Maria Dolores nem disponibilizou o prontuário de Francisco para os pais, para que eles possam levar a outro médico.

Isso tudo é uma infâmia.
Mas tudo sempre pode piorar. E frequentemente piora.
Ariane denunciou Maria Dolores ao Conselho Regional de Medicina, o órgão dos próprios médicos que julga casos relativos à ética. Se valerem alguma coisa, cassam o diploma dessa mulher.
Quem saiu em defesa dela? Acredite: o presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Paulo de Argollo Mendes. Em entrevista ao jornal Diário Gaúcho, declarou: "Ela tem a nossa admiração".

Como é que é?
Para Mendes, a postura da médica foi "absolutamente ética...  Se tem alguma coisa que te incomoda e que tu achas que vai prejudicar a tua relação com o teu paciente, se tu não vais se sentir confortável, se não vai ser prazeroso para ti atender aquela pessoa, tu deves dizer para ela francamente: olha, prefiro que tu procures um colega."

Se você não se sente confortável com um paciente porque ele é corintiano, vesgo, paraibano ou tucano, a postura ética é se negar a atender? Isso lá é coisa que o presidente de um sindicato que representa os médicos possa dizer? E manter a função? E manter o diploma?

Você, caro leitor antipetista, pode perfeitamente detestar Lula e torcer pelo impeachment de Dilma. É seu direito democrático. Agora imagine por um segundo que a história fosse o contrário: uma médica petista se recusando a atender uma criança, porque o bebê é filho de um eleitor do PSDB. E o presidente do sindicato aplaudisse. É absurdo ou não é?

Democracia é conflito abrandado por regras de civilidade, comuns a todos. Quando você se recusa a aceitar o outro porque ele é diferente de você, não está exercendo seu "direito". Está negando o direito do outro. Essa é a prática das ditaduras, do nazismo, do stalinismo.  Quando vindo de um médico - que se nega a atender um bebê! - é ainda mais repulsivo.

Essa história sintetiza exatamente o que há de mais errado sobre a situação que vivemos. Anos de discurso cada vez mais agressivo - dos dois lados - criaram um clima de "se você não está com a gente, está contra a gente", que justifica cada vez mais preconceito, ignorância, violência. Outro dia bateram num cachorro na rua porque estava com uma bandana vermelha...

Escrevi aqui semana passada que ganhe quem ganhar a queda de braço que hoje paralisa o país, vencedores e derrotados terão que conviver no dia, mês, anos seguintes.  O final era assim:
"Entendo que a juventude tenha fantasias revolucionárias em que nos livramos de "tudo que isso que está aí", seja "o que está aí" o que for. Mas adultos não têm esse direito. Você pode fantasiar com um Brasil sem o PT. Ou um Brasil sem ninguém para se opôr ao PT. Pode fantasiar com uma solução imediata e definitiva para o Brasil. Ou até com uma explosão, um momento mágico que nos faça começar do zero.

É só fantasia. O Brasil será o que fizermos dele - com o povo que temos, a elite que temos, os políticos e policiais e professores e juízes que temos. Essas pessoas estarão conosco por muitos e muitos anos. O Brasil do futuro terá Sarney, Collor, Lula, FHC, Dilma etc; seus filhos, netos, apadrinhados. Teremos que fazer um país melhor com a presença de "tudo isso que está aí".

Faltou dizer que não dá para fazer um país melhor para a geração do Francisco aceitando a postura imoral, imbecil de gente como Maria Dolores e Paulo de Argollo Mendes.  O caminho para o Brasil que merecemos exige o exercício diário da tolerância. Mas nunca, jamais com os intolerantes.



 
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