Filme conta a historia de queniano que lutou para estudar aos 84 anos

“UMA LIÇÃO DE VIDA” MOSTRA JORNADA DE UM IDOSO RUMO À ALFABETIZAÇÃO


Em 2003, o governo queniano anunciou que a educação seria livre para todos. Kimani Ng'ang'a Maruge, de 84 anos, acreditou naquele discurso e foi bater à porta da professora Jane Obinchu, numa escola primária.
A história parece fabricada para a tela grande, mas aconteceu de verdade e até rendeu um recorde no Guinness. Depois, inevitavelmente virou filme: “Uma Lição de Vida” estreia em agosto no Brasil, com um atraso de quatro anos, e tem tudo para agradar ao gosto brasileiro.
Para quem está acostumado a conviver com a EJA (educação de jovens e adultos) universidades abertas à terceira idade, alfabetização de adultos e outros cursos semelhantes, as barreiras de preconceito enfrentadas por Maruge (Oliver Litondo) soam anacrônicas. Mas é preciso lembrar que estamos numa cidade pobre e rural no Quênia, onde a escola tem uma única sala de aula, preparada para 50 alunos, e já recebe mais de 200. Além disso, ela não tem água encanada ou luz elétrica. É como se estivéssemos no mais profundo sertão nordestino.
Naomie Harris, que também trabalhou com o diretor Justin Chadwick em “Mandela – O Caminho Para a Liberdade”, assume o papel da professora. Sua personagem é um pouco caricata, perdendo alguns pontos em relação a outros clássicos do cinema de educação (como “Mentes Perigosas” ou “Entre os Muros da Escola”), mas isso acaba evidenciando outra vocação do filme: o drama histórico.
Maruge, esse sim, é um personagem completo: quando jovem, ele lutara junto a um grupo extremista pela independência do país. Por conta disso, fora preso e torturado (em cenas que lembram tanto “12 Anos de Escravidão” quanto “Django Livre”) antes de cair na miséria e no esquecimento.
Ressentido, ele tem convicção de que o governo, bem como o povo que hoje vive em relativa paz, tem com ele uma dívida eterna – e, apesar disso, tudo o que pede é a educação. Soma-se à cicatriz colonial outra ainda mais profunda, causada por desavenças milenares entre tribos da região.


“Uma Lição de Vida” peca pelo nome genérico (foi chamado de “O Estudante” em alguns países) e passa perto de uma abordagem igualmente frágil do tema da educação, mas ganha brilho ao dar atenção a uma comunidade tão singular. A cidadezinha e sua escola afastada simbolizam tantas outras, marcadas pela miséria, pela humilhação e pelo preconceito – mas que nem por isso deixam-se perder o orgulho. Podemos vê-lo nos olhos leitores de Maruge.


 
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