Enquanto polícia blinda praias do Rio, moradores de favela cobram estrutura


Os frequentadores da Zona Sul de Rio de Janeiro voltaram a passear com os celulares nas mãos este final de semana. Um contingente de 700 policiais militares e 300 guardas municipais patrulhou as praias mais famosas do Brasil para evitar novas ondas de furtos, roubos e violência como as que semearam o terror no último final de semana. As jornadas de sol e praia têm agora status de “grande evento” para as autoridades. Mas, enquanto em Copacabana e Ipanema a segurança tem sido o principal assunto de tertúlia, 17 quilômetros mais ao norte a conversa é outra e versa sobre medos, falta de estrutura básica, desconfiança da polícia e preconceito.
“Morador de comunidade é sempre marginalizado, aí o que faz uma minoria acaba estigmatizando todo o resto”, lamenta Ana, auxiliar de serviços gerais de 27 anos, moradora do complexo de favelas de Manguinhos, e mãe de um menino e um adolescente. “Eu acredito que deve ter mais planejamento social nas comunidades, é muito moleque sem fazer nada durante todo o dia. Aqui não tem oferta. Tem escolas, sim, mas não tem cursos ou atividades. Ou estão longe ou tem que pagar. Não adianta julgar dentro dos ônibus, tem que vir aqui e ver como vivem”, lamenta.
Ana afirma que cria os filhos na “lei de Deus”, “mostrando o que é certo e o que é errado”, mas desafiada sobre a possibilidade de seu filho mais velho ser um dos que assaltam nas praias, responde: “Cabeça de adolescente, já sabe como é, né, pode mudar, ainda mais se for influenciado por outras pessoas. Mas eu cortei rápido, quando vi algo errado”. Ana não quer dar seu nome completo “por medo” – “moro em comunidade, sabe?”. A região, composta por 13 favelas onde vivem mais de 36.000 pessoas, conta com a presença das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP’s) desde 2013, embora os tiroteios e a violência não tenham acabado. A principal via de circulação de lá é chamada popularmente de Faixa de Gaza por causa dos frequentes conflitos armados.
A falta de incentivo é uma das causas apontadas por Juliana Custodio, de 29 anos e também moradora de Manguinhos, para explicar a entrada de jovens no crime. “Já nas escolas, essas crianças devem ser incentivadas a fazer esporte, a gostar e se formar em uma profissão. Você precisa dar um sonho para elas, senão resta o quê?”, questiona Juliana, de mãos dadas num ponto de ônibus com seu filho pequeno.
O deputado estadual pelo PSOL, Marcelo Freixo, assim como outros especialistas, sublinhou, no final de semana passado, de que os incontáveis assaltos nas praias não se restrinjam a um problema de segurança pública. “Se pegarmos as regiões administrativas um e dois, que corresponde à Zona Sul e Grande Tijuca [áreas mais ricas da cidade], teremos 366 equipamentos culturais para cerca de 1,3 milhão de pessoas. Na região três, na Zona Norte [com grande concentração de favelas], são apenas 78 equipamentos para 2,4 milhões”, afirmou no seu perfil de Facebook.

28 crianças ainda aguardam os pais

À caminho da praia, a Operação Verão, adiantada várias semanas como no ano passado, continuava com 17 blitz policiais responsáveis por parar e revistar os passageiros de ônibus provenientes dos subúrbios. A medida, que pretende evitar a chegada de gangues de assaltantes à orla, é agora justificada pela "vulnerabilidade social" dos menores. Uma criança não escolarizada, sem acesso à saúde, sob os efeitos de drogas ou desnutrida é considerada vulnerável para os assistentes sociais.
A intervenção dos serviços sociais nos arrastões nas praias, fenômeno que vem desde os anos 90, escancara a realidade de entornos de abandono familiar e institucional. Entre o sábado e o domingo, 50 crianças e adolescentes foram retiradas dos coletivos pelos agentes e atendidos por assistentes sociais da Prefeitura. Alguns tinham pulado a catraca e outros andavam sem dinheiro e desacompanhados. Pelo menos 28 – 20 deles menores de 12 anos – ainda aguardavam em um abrigo municipal até o fechamento da reportagem, na noite de domingo. Ninguém se responsabilizou por eles.
A situação escapa da compreensão não só da polícia. “O que eu acho mais triste é ter crianças de oito anos sem responsáveis. É difícil de compreender, e por isso é importante ter esse trabalho integrado para diminuir qualquer tipo de dano ao limitar a liberdade das pessoas”, disse o secretário de Segurança Pública José Maria Beltrame, no domingo. “Mas uma criança de 12 anos dizendo que é responsável pelas outras transcende muito a competência de qualquer órgão, de qualquer instituição, e volta para a família brasileira”. Beltrame, que acompanhou as operações dos seus homens todo o final de semana e reconheceu que a "vulnerabilidade social" deve ser abordada nas comunidades e não estritamente na Zona Sul, vestia uma camiseta com a legenda nas costas: “Rio sem barreiras”.
Fonte: Elpais

 
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