A verdadeira história por trás desse vídeo com ofensas racistas contra os suburbanos na praia

Quando a página Mariachi postou este trecho de um documentário gravado nos anos 90 e exibido pela Rede Manchete, não faltaram pessoas chocadas com as declarações feitas no vídeo:


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Em pouco menos de dois minutos, três entrevistados reclamam de uma recém-inaugurada linha de ônibus que levava os moradores do subúrbio direto para as praias da Zona Sul do Rio.

A reação de quem assistiu foi imediata.

A reação de quem assistiu foi imediata.
Reprodução
Reprodução

Uma das entrevistadas mais atacadas é a garota que tem mais tempo de vídeo:





Mas, em meio aos muitos comentários de ódio contra a garota acima, apareceu uma mulher chamada Angela Moss.

Ela se apresentou como a própria garota da reportagem e escreveu um longo depoimento dizendo que tinha mudado desde então: “Fico feliz que fiquem indignados com o vídeo, o que me perturba mesmo é quando escrevem dando os parabéns”.


Sim, esse vídeo, em parte, é verdadeiro. Infelizmente era eu nesse vídeo quando tinha 18 anos. Eu era uma criança retardada e com pouco conhecimento. Mesmo culta era alienada. Hoje em dia tenho 47 anos e muita coisa se passou. Quando na eleição da Dilma eu escrevi um manifesto dizendo que já havia sido de ultra direita muita gente não acreditou. (…)
Se tenho vergonha? Hoje em dia, aos quase 50 anos, não tenho mais idade para ter vergonha. Tenho orgulho de ter podido evoluir. Fico feliz que você postou esse vídeo, é importante jogar na cara da sociedade o que ela não quer dizer.
Eu sempre disse, para o bem ou para o mal, o que eu penso. Sou hipocrisia zero.Fico feliz que pessoas como vc fiquem indignadas com esse vídeo, o que me perturba mesmo são as muitas que me escrevem dando os parabéns. Peço, portanto, que você mantenha o vídeo mas, se possível, publique minha declaração.”

A reportagem  procurou Ângela, que concordou em falar e explicou que apagou a postagem printada acima depois de receber milhares de comentários, “incluindo ameaças de morte e propostas de casamento”.

Ela é advogada, mestre em filosofia e já foi professora. Hoje, se define como uma “bem-humorada cinquentona que evita e reconhece as armadilhas do ódio”.

Ela é advogada, mestre em filosofia e já foi professora. Hoje, se define como uma "bem-humorada cinquentona que evita e reconhece as armadilhas do ódio".
Arquivo pessoal
Na foto, Ângela posa ao lado de Eduardo Suplicy.

Perguntamos o que ela diria hoje para essa moça do vídeo, se pudesse viajar no tempo. Ângela explicou que falaria o que diz para si mesma até hoje: “controle seus preconceitos, aprenda a se colocar no lugar dos outros e seja humilde”.

Ela classificou a reação das pessoas como terrível, mas compreensível. “Eu banco. Banco as coisas que digo e se me arrependo eu banco também. Se posicionar é fundamental, vencer o próprio ódio e ver o outro também”.


 
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